Custódia ou autocustódia: quem guarda o seu bitcoin?
Na custódia, uma empresa guarda o seu bitcoin e você fica com a promessa dela de devolvê-lo; na autocustódia, a chave é sua, e ninguém pode trazê-la de volta se ela se perder. Deixe o dinheiro do dia a dia numa carteira que você controla, e as economias em custódia compartilhada, onde ninguém, nem a empresa, consegue movimentá-las sozinho.
Todo bitcoin, e todo dólar digital, só se movimenta com uma chave privada. Então a primeira pergunta sobre qualquer lugar onde você os guarda é quem tem essa chave: uma empresa, ou você.
Cada opção falha do seu jeito. Uma empresa pode quebrar e deixar você esperando a Justiça, congelar a sua conta ou vazar o que sabe sobre você. Uma chave sua pode ser perdida ou roubada, e aí não há a quem recorrer.
Numa corretora, você tem uma promessa
Quando você compra bitcoin numa corretora, ou num app que o guarda para você, as moedas costumam ficar nas carteiras da própria empresa, misturadas com as de todos os outros. O que é seu é um registro nos livros da empresa: a promessa de entregá-las quando você pedir.
Isso tem vantagens reais. Uma senha esquecida pode ser redefinida, alguém responde quando algo dá errado, e comprar ou vender leva segundos. Funciona enquanto a empresa puder cumprir a promessa, e quiser. A chance de ela não poder ou não querer se chama risco de contraparte.
As letras miúdas decidem de quem são as moedas
O que essa promessa vale quando uma empresa quebra depende dos termos que você aceitou ao abrir a conta.
Em janeiro de 2023, o juiz da falência da Celsius decidiu que as criptomoedas das suas contas “Earn”, que pagavam juros, pertenciam à empresa, e não aos clientes que as tinham depositado: cerca de 4,2 bilhões de dólares, em umas 600.000 contas. Os termos que eles tinham aceitado davam à Celsius “todo o direito e titularidade” sobre as moedas, “incluindo os direitos de propriedade”, e o direito de vendê-las, emprestá-las ou dá-las em garantia. Então esses clientes não eram donos esperando as suas moedas. Eram credores sem garantia, esperando uma parte do que sobrasse.
Em maio de 2023, o juiz da falência da BlockFi traçou uma linha entre dois tipos de conta. As criptomoedas das suas carteiras de custódia, que não pagavam nada, eram propriedade dos clientes, e quase 300 milhões de dólares delas podiam ser devolvidos. As das contas com juros, não. Depois que os saques foram congelados, clientes pediram para transferir 375 milhões de dólares das contas com juros para as suas carteiras, e o juiz decidiu que nenhuma dessas transferências tinha sido concluída.
Nas duas empresas, as moedas que rendiam juros tinham deixado de ser dos clientes. Antes de depositar em qualquer lugar, leia o que os termos permitem que a empresa faça com as suas moedas. Se ela pode emprestá-las, dá-las em garantia ou vendê-las, você está emprestando para ela.
Quando a promessa é quebrada
- Fevereiro de 2014. Mt. Gox, uma corretora de Tóquio, pediu proteção contra falência, dizendo que cerca de 750.000 bitcoins dos seus usuários e 100.000 dela mesma tinham desaparecido. Um mês depois, encontrou 200.000 numa carteira antiga. Os pagamentos começaram em julho de 2024, mais de dez anos depois, e em outubro de 2026 o prazo para concluí-los foi adiado para outubro de 2027.
- Junho de 2022. Celsius congelou os saques, alegando “condições extremas de mercado”, e pediu falência um mês depois. Em janeiro de 2024, os seus credores começaram a receber cerca de 3 bilhões de dólares em cripto e dinheiro, e ações de uma nova empresa de mineração de bitcoin. O seu fundador, que segundo a promotoria dos Estados Unidos tinha prometido manter os ativos dos clientes “mais seguros do que num banco”, se declarou culpado de fraude e foi condenado a 12 anos em maio de 2025.
- Julho de 2022. Voyager, uma corretora de cripto dos Estados Unidos, suspendeu os saques, dizendo que um fundo de hedge não tinha pagado um empréstimo de 650 milhões de dólares, e pediu falência dias depois. Ela tinha sugerido aos clientes que o dinheiro deles estava segurado pela FDIC, o fundo garantidor de depósitos dos Estados Unidos. A FDIC e o Federal Reserve chamaram isso de “falso e enganoso”: o seguro cobria a quebra do banco onde a Voyager guardava os dólares dos clientes, não a quebra da Voyager. Dois pagamentos, o segundo a partir de julho de 2024, devolveram 70% do que era devido aos clientes, segundo o administrador responsável pela liquidação.
- Novembro de 2022. FTX suspendeu os saques em 8 de novembro e pediu falência três dias depois: os depósitos dos clientes tinham sido usados para outros fins. O seu fundador foi condenado por fraude. Os clientes começaram a ser pagos em fevereiro de 2025, em dinheiro, pelo valor que as suas moedas tinham no dia da falência. O plano paga à maioria mais do que esse valor, mas em dólares: quem tinha um bitcoin a receber foi pago pelo preço de um bitcoin em novembro de 2022, e não recebeu um bitcoin.
Em todos os casos, os clientes viraram credores. Esperaram a Justiça, e o que voltou veio tarde, menor ou em outra forma.
Uma empresa não precisa quebrar para congelar você
O que uma corretora guarda para você também pode ser congelado enquanto a empresa vai bem: por um governo, por um juiz ou pela própria empresa.
Em fevereiro de 2022, durante os protestos de caminhoneiros conhecidos como Freedom Convoy, o governo do Canadá invocou a sua Lei de Emergências por nove dias. Com ela, os bancos e outras empresas financeiras, incluindo plataformas de cripto, tinham que deixar de atender qualquer conta que suspeitassem estar sendo usada para os bloqueios, e podiam congelá-la na hora, sem ordem judicial. A polícia enviou às empresas reguladas 34 endereços de cripto com os quais elas deviam parar de operar. Em janeiro de 2026, o Tribunal Federal de Apelação do Canadá manteve uma decisão segundo a qual invocar a lei não tinha sido razoável, e as buscas que ela impôs às empresas financeiras violaram a Carta de Direitos; em outubro de 2026, a Suprema Corte aceitou julgar o recurso do governo.
Um juiz também pode fazer isso. Na mesma semana, um tribunal de Ontário congelou mais de 100 endereços de cripto numa ação coletiva sobre os protestos, e a ordem valia para qualquer um que soubesse dela, corretoras incluídas. Como observou um escritório de advocacia, uma empresa de cripto pode não ter como congelar moedas cujas chaves só o dono tem.
E uma empresa pode encerrar uma conta por conta própria, ou deixar de atender um país, sem ordem nenhuma.
O que uma corretora sabe sobre você
Uma empresa que guarda o seu dinheiro mantém um cadastro sobre você, e cadastros vazam.
Em maio de 2025, uma grande corretora dos Estados Unidos revelou que criminosos tinham pagado terceirizados e funcionários das suas equipes de atendimento fora dos Estados Unidos para copiar registros de clientes, e depois exigiram 20 milhões de dólares para não publicá-los. Segundo o documento que ela entregou à SEC, os registros tinham nomes, endereços, telefones e e-mails dos clientes; os quatro últimos dígitos do número de Social Security americano; números de contas bancárias parcialmente ocultos; imagens de passaportes e carteiras de motorista; e saldos e históricos de transações. Segundo um documento entregue ao procurador-geral do Maine, 69.461 clientes foram afetados.
A corretora se recusou a pagar. Disse que os criminosos queriam uma lista de clientes que pudessem contatar fingindo ser a corretora, para enganá-los e fazê-los entregar as suas criptomoedas, e que reembolsaria os clientes que tivessem sido enganados. Estimou o custo entre 180 milhões e 400 milhões de dólares.
Uma senha pode ser trocada; um endereço residencial e uma identidade, não. Quando fabricantes de carteiras de hardware vazaram listas como essa, alguns dos seus clientes receberam ameaças de que iriam até as suas casas: o guia sobre carteiras de hardware, multiassinatura e custódia compartilhada traz os casos.
Na autocustódia, não há ninguém no meio
Autocustódia quer dizer que a chave é sua: no seu celular, num dispositivo de hardware ou dividida entre vários lugares. Ninguém pode congelar o seu bitcoin, emprestá-lo ou perdê-lo numa falência, porque ninguém mais o tem. Com os dólares digitais é diferente: o emissor pode congelá-los em qualquer carteira, como explica o guia sobre dólares digitais.
Também não há a quem recorrer. A chave, e a frase-semente que serve de backup dela, são um ponto único de falha. Perca as duas e o dinheiro fica onde está, fora do alcance de todos. Deixe alguém copiar qualquer uma delas e essa pessoa pode movimentá-lo tão facilmente quanto você, e ninguém pode desfazer.
Quanto custa uma chave perdida ou roubada
Em março de 2020, a Chainalysis contava cerca de 3,75 milhões de bitcoins como perdidos, por volta de um quinto dos 18,27 milhões minerados até então. É uma estimativa, já que uma moeda perdida parece igual a uma que nunca se moveu, mas por trás de uma conta assim há histórias como estas:
- Em 2013, um homem no País de Gales jogou fora um disco rígido com as chaves do que, segundo ele, eram 8.000 bitcoins, e o disco foi parar no aterro sanitário da cidade. Em janeiro de 2025, o Alto Tribunal rejeitou a ação dele contra a prefeitura para escavar o aterro, entendendo que, por uma lei de 1974, o disco tinha passado a ser da prefeitura assim que foi entregue lá, e em março o Tribunal de Apelação se recusou a julgar o caso.
- Um programador de São Francisco recebeu 7.002 bitcoins em 2011 por um vídeo animado que explicava o bitcoin. As chaves estão num dispositivo criptografado que se apaga sozinho depois de dez senhas erradas. Em janeiro de 2021, restavam a ele duas tentativas.
O roubo é a outra metade. A Chainalysis contou 158.000 roubos de carteiras pessoais em 2025, de pelo menos 80.000 pessoas, e 713 milhões de dólares levados, e diz que o número real provavelmente é muito maior.
Dividir as chaves: custódia compartilhada
Entre as duas estão as carteiras que precisam de mais de uma chave. Uma carteira de multiassinatura tem várias chaves, guardadas em lugares diferentes, e uma regra sobre quantas precisam assinar. Na custódia compartilhada, uma empresa tem uma das chaves e você tem as outras; uma configuração comum tem três, das quais quaisquer duas movimentam o dinheiro: a sua chave do dia a dia, a da empresa e uma reserva. A empresa pode ajudar você a recuperar uma chave perdida, mas não pode movimentar, emprestar ou dar o dinheiro em garantia por conta própria, e se ela quebrar, as suas chaves movimentam o dinheiro sem ela, sem tribunal e sem fila de credores.
O nome é usado sem muito rigor, e nem todo serviço funciona assim. O guia sobre carteiras de hardware, multiassinatura e custódia compartilhada apresenta o teste, e o que ela custa.
Lado a lado
| Corretora | Carteira de uma chave | Custódia compartilhada | |
|---|---|---|---|
| Quem pode movimentar | A empresa, ou quem invadir os sistemas dela ou a sua conta | Quem tiver a chave ou as palavras dela: você, ou um ladrão | Quaisquer duas das três chaves, nunca a empresa sozinha |
| Quem pode congelar | A empresa, por conta própria ou por ordem | Ninguém, no caso do bitcoin | Ninguém sozinho: as suas duas chaves movimentam o dinheiro sem a empresa |
| O que faz você perder | A empresa quebrar, ser roubada ou fazer mau uso | A chave e o backup dela, perdidos ou roubados | Perder duas das três chaves |
| Se a empresa quebrar | Você vira credor e espera | Nada acontece com as moedas | As suas duas chaves movimentam o dinheiro sem a empresa |
| O que a empresa sabe sobre você | A sua identidade, endereço, conta bancária, saldo e cada transação | Só o que o app pedir | Geralmente o seu saldo e as suas transações, e o que ela pedir no cadastro |
Os dólares digitais somam um risco a todas as colunas: o emissor pode congelá-los em qualquer carteira.
Quatro perguntas que resolvem
Seja o que for que você use, quatro perguntas dizem quem realmente tem o seu dinheiro:
- Quem pode movimentá-lo sem perguntar a você?
- Se você perder o celular, como volta a ter acesso, e quem decide?
- Se a empresa por trás desaparecer amanhã, do que você precisaria para movimentar o seu dinheiro sem ela?
- Se você morrer, quem pode chegar até ele, e como?
Os guias sobre perder o celular e sobre herança aprofundam a segunda e a quarta.
Como escolher
- Use uma corretora para comprar e vender, não para guardar economias. Tire de lá o que você não vai negociar logo. Enquanto estiver lá, você tem uma promessa, e os casos acima mostram quanto paga uma promessa quebrada: anos depois, muitas vezes menos, às vezes em outra forma.
- Não empreste moedas que você pretende guardar. Na Celsius e na BlockFi, as moedas que rendiam juros foram as que deixaram de ser dos clientes.
- Para o dinheiro que você gasta, uma carteira que você controla. Uma chave, no seu celular, com mais ou menos o que você levaria em dinheiro vivo: se ela for perdida ou roubada, o que está nela também vai.
- Para as economias, custódia compartilhada, se ela passar no teste do guia sobre carteiras de hardware, multiassinatura e custódia compartilhada.
Fontes
Verificadas em 29 de outubro de 2026.
- Tribunal de Falências dos Estados Unidos, Distrito Sul de Nova York: a quem pertencem as contas Earn da Celsius (2023)
- The Block: as carteiras e as contas com juros da BlockFi diante do juiz (2023)
- Mt. Gox: comunicado de 28 de fevereiro de 2014
- Mt. Gox: 200.000 bitcoins encontrados (2014)
- Administrador judicial da Mt. Gox: começam os pagamentos (2024)
- Administrador judicial da Mt. Gox: prazo adiado para outubro de 2027 (2026)
- The Block: a Celsius suspende os saques (2022)
- CoinDesk: a Celsius pede falência (2022)
- The Block: a Celsius começa a pagar os credores (2024)
- Banking Dive: a condenação do fundador da Celsius (2025)
- The Block: a Voyager suspende os saques (2022)
- TechCrunch: a Voyager pede falência (2022)
- Federal Reserve e FDIC: carta à Voyager sobre o seguro de depósitos (2022)
- Administrador do plano da Voyager: sétimo relatório aos credores (2024)
- CoinDesk: a FTX suspende os saques (2022)
- Departamento de Justiça dos Estados Unidos: a condenação do fundador da FTX (2024)
- The Block: a FTX começa a pagar os clientes (2025)
- The Block: como a FTX avalia os créditos em bitcoin (2025)
- Departamento de Finanças do Canadá: as medidas financeiras da Lei de Emergências (2022)
- CoinDesk: a polícia lista 34 endereços de cripto (2022)
- Canada Gazette: a emergência é revogada (2022)
- Tribunal Federal de Apelação do Canadá: 2026 FCA 6, resumo da decisão (2026)
- CP24: a Suprema Corte vai julgar o recurso do governo (2026)
- Bennett Jones: a ordem judicial que congelou endereços de cripto (2022)
- SEC: o Form 8-K da corretora sobre os dados de clientes roubados (2025)
- Help Net Security: para que os criminosos queriam os dados (2025)
- The Block: 69.461 clientes afetados (2025)
- Chainalysis: os bitcoins perdidos (2020)
- Alto Tribunal da Inglaterra e do País de Gales: a sentença sobre o aterro sanitário (2025)
- Local Government Lawyer: o recurso negado (2025)
- CBC: restam duas tentativas de senha (2021)
- Chainalysis: roubos de carteiras pessoais em 2025 (2025)