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Carteira de hardware, multiassinatura ou custódia compartilhada?

Uma carteira de hardware é uma chave só, que ainda precisa chegar até você. A multiassinatura falha quando uma única empresa tem todas as chaves. A custódia compartilhada, bem feita, evita as duas coisas.

Nenhuma forma de guardar bitcoin está a salvo de tudo. O que muda é quantas coisas diferentes precisam falhar, ou ser roubadas, até o dinheiro sumir, e que coisas são essas. Contá-las é uma boa forma de comparar.

Uma carteira no celular

A chave fica no celular, criptografada, e uma frase-semente serve de backup. É um jeito fácil de começar, e o celular é um computador sempre conectado, que roda outros apps, abre links e se perde.

Uma única coisa basta para perder o dinheiro: um malware, um app de carteira falso, uma página que engana você para digitar as palavras, ou as palavras encontradas por outra pessoa. Em agosto de 2022, milhares de carteiras de Solana foram esvaziadas em poucas horas; pesquisadores descobriram que um app de carteira, o Slope, vinha enviando as frases de recuperação dos seus usuários, sem criptografia, para um serviço externo que registrava erros.

Uma carteira de hardware

Um pequeno dispositivo cria a chave, guarda-a offline e assina as transações dentro dele mesmo, então a chave nunca passa pelo seu computador nem pelo seu celular. Isso fecha a porta principal que uma carteira no celular deixa aberta: um malware no computador não consegue copiar uma chave que nunca sai do dispositivo.

O que sobra ainda é uma coisa só. A frase-semente restaura tudo, então quem a tem tem o dinheiro. E o dispositivo precisa ser o que diz ser:

  • Em julho de 2026, a Coinkite revelou que um erro de firmware, presente desde março de 2021, tinha feito as frases de recuperação criadas por alguns dos seus dispositivos Coldcard ficarem muito menos aleatórias do que deveriam, de modo que podiam ser adivinhadas. Segundo a TRM Labs, os atacantes levaram cerca de 1.816 bitcoins de mais de 5.200 endereços.
  • Em outubro de 2026, a Ledger confirmou que dispositivos vendidos pela CryptoBilis, um revendedor que ela tinha autorizado na Malásia, na Indonésia e nas Filipinas, traziam um chip escondido que lia na tela as 24 palavras de recuperação e as enviava pela rede de celular. Pesquisadores que rastrearam o dinheiro calcularam as perdas em até 93 milhões de dólares, de mais de 300 carteiras; a Ledger não confirmou um total.

E há a ameaça que nenhum dispositivo impede: alguém obrigar você a desbloqueá-lo. Uma lista pública de ataques físicos contra quem tem bitcoin, mantida no GitHub, registra 167 em 2025, mais do que em qualquer ano anterior, em dados de outubro de 2026, e a própria lista avisa que não está completa. Na França, 2025 trouxe uma série de sequestros ligados a cripto, entre eles o de um cofundador de uma empresa de carteiras de hardware, em janeiro; em junho, 25 pessoas tinham sido acusadas pelas tentativas daquela primavera europeia.

O endereço na caixa

Uma carteira de hardware precisa ser enviada para alguém, em algum lugar. No caminho, o pedido passa pela loja online do fabricante, por uma empresa de pagamentos, por uma transportadora e muitas vezes por um atendimento ao cliente, e cada um deles guarda um registro de quem comprou uma carteira de cripto e para onde ela foi. Esses registros vazaram de novo e de novo:

  • 2020. Ledger. Uma base de dados de clientes roubada em junho foi publicada num fórum de hackers em dezembro: cerca de um milhão de endereços de e-mail, e os nomes, endereços postais e telefones de uns 272.000 clientes.
  • Janeiro de 2024. Trezor. Alguém entrou no sistema externo que ela usava para o suporte, onde estavam os nomes e e-mails de até 66.000 pessoas que tinham escrito para ela desde dezembro de 2021.
  • Janeiro de 2026. Ledger, de novo, por meio da Global-e, a empresa que processa os pagamentos da sua loja online: nomes, endereços postais, e-mails, telefones e pedidos de clientes. A Ledger não disse quantos.
  • Agosto de 2026. Trezor, de novo, por meio da ShipMonk, a sua empresa de envios: os nomes, endereços de entrega, e-mails e telefones de cerca de 81.000 clientes, entre eles pedidos dos Estados Unidos de 2019 a 2021 que a ShipMonk deveria ter apagado pelo contrato.
  • Outubro de 2026. Keystone. Alguém entrou na sua loja online e levou nomes, dados de contato, endereços de entrega e pedidos de clientes.
  • Outubro de 2026. Foundation. Atacantes entraram em parte dos seus sistemas e mandaram aos clientes um falso recall do produto, algumas mensagens com o endereço residencial real, o telefone e o histórico de compras de cada um, para conseguir as suas frases de recuperação.

Esses vazamentos não esvaziaram carteiras sozinhos. Fizeram algo pior: contaram a criminosos quem tem cripto e onde mora, e um endereço residencial não se troca como uma senha. Depois do vazamento da Ledger em 2020, clientes receberam e-mails de pessoas que diziam não ter medo de invadir as suas casas. Um cliente relatou um telefonema de alguém que tinha os seus dados do vazamento e ameaçou ir até a casa dele, sequestrá-lo e matar qualquer parente que encontrasse lá. Outros receberam pelo correio dispositivos de “substituição” falsos, com uma carta pedindo que digitassem as palavras de recuperação no app do aparelho. Em janeiro de 2021, a Ledger disse que apagaria os nomes, endereços e telefones dos seus clientes assim que pudesse. Em janeiro de 2026, a empresa que cuidava dos pagamentos da sua loja online vazou de novo nomes, endereços e telefones de clientes da Ledger.

Não há um jeito seguro de comprar uma

Qualquer forma de comprar uma carteira de hardware deixa você exposto a um de dois riscos: o seu endereço em registros que vazam, ou um dispositivo que você não consegue ver por dentro. O conselho dos fabricantes, comprar no site deles ou de um revendedor autorizado, não tira você de nenhum dos dois.

  • Entregue na sua casa. O seu nome, endereço e telefone entram nos registros do fabricante, da sua empresa de pagamentos e da sua transportadora, e os vazamentos acima mostram onde esses registros acabam, mais cedo ou mais tarde. A Keystone, ao pedir desculpas pelo seu, escreveu: “Não cumprimos o nosso compromisso de apagar os dados dos clientes a tempo”.
  • Comprada de um revendedor. Sem entrega e sem endereço registrado, mas também sem como ver o que há dentro da caixa. Os dispositivos com implante citados acima foram vendidos por um revendedor que a Ledger tinha autorizado: comprar onde o fabricante mandava comprar não protegeu ninguém. Na Europa, a rede de eletrônicos MediaMarkt parou de vender dispositivos Ledger, nas lojas e online, depois que um cliente na Alemanha relatou ter encontrado um implante.
  • Verificada pelo fabricante. Um dispositivo que passa na verificação de autenticidade do fabricante também não é prova. Em outubro de 2026, a Keystone disse que a chave que os seus dispositivos usam para provar que são originais tinha sido roubada, então falsificações podiam passar na verificação, e que destruiria 18.835 dispositivos não vendidos.

Ao contrário dos fabricantes de celulares, os de carteiras de hardware não têm rede de lojas próprias: na maioria dos lugares, as únicas opções são uma entrega ou um revendedor.

A única saída para o primeiro risco é um endereço de entrega que não seja a sua casa: um ponto de retirada, uma caixa postal, um escritório. Poucos compradores usam um. E seja como for comprada, uma carteira de hardware continua dependendo de uma única chave: quem consegue a frase-semente, ou o dispositivo e o PIN, consegue o dinheiro.

Se você comprar uma mesmo assim:

  • compre no site do fabricante e mande entregar num ponto de retirada ou numa caixa postal, não na sua casa;
  • use um endereço de e-mail que você não use para mais nada;
  • trate qualquer recall, substituição ou alerta de segurança que chegue por e-mail, SMS ou correio como golpe, até que o próprio site do fabricante diga o contrário.

Uma carteira que é só um app não tem nada para enviar: nenhum endereço de entrega para vazar, nenhuma caixa para adulterar. Que outros dados um serviço guarda sobre você é algo que vale perguntar antes de se cadastrar.

Multiassinatura

Várias chaves, guardadas em lugares separados, e uma regra sobre quantas precisam assinar; duas de três é comum. Um ladrão precisa de duas chaves, não de uma, e perder uma chave não faz você perder o dinheiro.

O preço é ter mais coisas para cuidar: um backup de cada chave, e uma coisa que as pessoas esquecem, a configuração da carteira, ou seja, a lista de chaves e a regra. Só com as chaves, uma carteira nem sempre consegue descobrir quais endereços usou, então a configuração, muitas vezes salva como um “descritor”, também precisa de cópias.

Se você tem todas as chaves, ficam duas fraquezas. Cada chave costuma ser uma carteira de hardware, então cada uma é mais um pedido, mais uma entrega e mais um registro com o seu endereço. E todas as chaves são suas: alguém que chegar até você pode obrigar você a usar todas elas.

Onde a multiassinatura falhou, uma empresa tinha as chaves

Nenhum desses roubos de carteiras multiassinatura quebrou a criptografia. Em quatro dos cinco, uma única empresa tinha chaves suficientes para assinar sozinha, então uma regra feita para exigir várias mãos exigia só uma:

Quando Onde Quanto Quem tinha as chaves
Agosto de 2016 Bitfinex 119.756 bitcoins A Bitfinex tinha duas das três chaves. Os seus limites de saque “foram contornados”, nas palavras dela, e como isso aconteceu nunca foi divulgado.
Março de 2022 Ronin Cerca de 625 milhões de dólares Os saques exigiam 5 de 9 validadores. Uma empresa operava quatro, e uma permissão que ela tinha recebido e nunca foi revogada deu ao atacante o quinto.
Junho de 2022 Harmony Cerca de 100 milhões de dólares As poucas chaves da ponte ficavam em servidores da própria Harmony. Os atacantes entraram pelo notebook de um desenvolvedor e levaram duas, o bastante para assinar.
Julho de 2024 WazirX Mais de 230 milhões de dólares As chaves estavam divididas entre a WazirX e uma empresa de custódia, e mesmo assim os signatários aprovaram uma transação que, segundo a WazirX, não era a que a tela deles mostrava. A empresa de custódia diz que os seus sistemas não foram invadidos.
Fevereiro de 2025 Bybit Cerca de 1,46 bilhão de dólares, segundo a Elliptic Todos os signatários eram da própria Bybit. Um código plantado pelo computador de um desenvolvedor do seu fornecedor de carteira mostrou a eles uma transferência de rotina, e o que assinaram entregou a carteira. O FBI atribuiu o roubo à Coreia do Norte.

A WazirX é a exceção, e o alerta: chaves nas mãos de duas empresas ainda não bastaram, porque ninguém conferiu, nos próprios sistemas, o que estava sendo assinado. Dividir as chaves só protege você se cada detentor conferir cada transação por conta própria.

Custódia compartilhada

Uma carteira multiassinatura com as chaves divididas entre você e uma empresa. Uma configuração comum tem três chaves: a sua chave do dia a dia, a da empresa e uma chave reserva para recuperação, guardada em outro lugar; quaisquer duas movimentam o dinheiro. Bem feita, ela responde a cada uma das falhas acima:

  • Ninguém consegue movimentar o dinheiro sozinho, nem a empresa. A chave dela é uma de três, nunca suficiente sozinha. Bitfinex, Ronin, Harmony e Bybit falharam porque uma única empresa conseguia.
  • A empresa confere o que assina junto, nos próprios sistemas. Ela pode recusar uma transação que desrespeita os limites que você definiu, ou fazer um saque grande esperar: a verificação que faltou na WazirX. Um limite também tira de um ladrão na sua porta o que ele quer, que é rapidez.
  • Uma chave perdida não faz você perder o dinheiro. A chave da empresa e a sua chave reserva o transferem para uma carteira nova, com uma chave nova no lugar da perdida.
  • A empresa também não é um ponto único de falha. Se ela desaparecer, a sua chave do dia a dia e a sua chave reserva movimentam o dinheiro sem ela.
  • A sua chave não precisa ser um dispositivo que você compra. Ela pode ficar no seu celular, então não há caixa para adulterar nem registro de entrega com o seu endereço.

O que custa: enquanto a empresa existir, você depende da assinatura dela para as movimentações do dia a dia; ela geralmente vê o seu saldo e as suas transações; e muitas cobram uma mensalidade ou uma anuidade. E o nome é usado sem muito rigor, então antes de escolher uma, veja quem tem cada chave, o que a empresa confere antes de assinar e do que você precisaria para movimentar o dinheiro se ela deixasse de existir. O verbete do glossário traz as perguntas a fazer.

Lado a lado

Carteira no celular Carteira de hardware Multiassinatura, todas as chaves suas Custódia compartilhada
O que basta para roubá-la As palavras, ou o celular desbloqueado As palavras, ou o dispositivo e o PIN Duas das suas chaves, ou você, obrigado a usá-las Duas das três chaves, e a da empresa vem com as verificações e os limites dela
O que basta para perdê-la O celular, se as palavras também se perderem O dispositivo, se as palavras também se perderem Duas das chaves, ou uma, se a configuração também se perder Duas das três chaves
Quem confere uma transação Você Você Você Você, e a empresa nos próprios sistemas
Quem pode ajudar você a recuperar Ninguém Ninguém As suas outras chaves A empresa, com a sua chave reserva
O seu endereço registrado Não pela carteira: nada é enviado Com o fabricante e as empresas com quem ele trabalha Com cada fabricante de quem você comprou um dispositivo Só se uma das suas chaves for um dispositivo que você recebeu em casa

Como escolher

  • Para o dinheiro que você gasta, uma carteira no celular. Se ela for perdida ou roubada, o que está nela também vai, então guarde ali o que você levaria em dinheiro vivo.
  • Para as economias, uma custódia compartilhada que passe no teste acima: ninguém consegue movimentar o dinheiro sozinho, a empresa confere o que assina e respeita os seus limites, uma chave perdida pode ser substituída, você pode sair sem a empresa, e a sua chave não depende de uma caixa que chega pelo correio.
  • Uma carteira de hardware sozinha dá mais trabalho que uma carteira no celular e continua sendo uma chave só, e comprá-la deixa o seu endereço registrado ou põe nas suas mãos um dispositivo que você não consegue verificar.
  • Uma multiassinatura com todas as chaves suas elimina a chave única, mas não as entregas, nem a pessoa que pode ser obrigada a assinar.

Seja qual for a escolha, pergunte quem mais deveria conseguir chegar ao dinheiro se você não puder (o guia sobre herança trata disso), e se você ainda vai entender o arranjo daqui a dez anos.

Fontes

Verificadas em 29 de outubro de 2026.