Quanto custa de verdade comprar bitcoin?
Mais do que a taxa que você vê: boa parte do custo está dentro do preço, como spread. Quando pesquisadores compraram e venderam por nove apps em 2026, a ida e volta custou em média de cerca de 0,5% a mais de 6%, conforme o app.
O comprovante de uma compra de bitcoin quase nunca diz quanto ela custou para você. O que você pagou é a diferença entre o dinheiro que entregou e o que vale, a preço de mercado, o bitcoin que recebeu, e boa parte dessa diferença pode estar dentro do preço, onde o comprovante não mostra. Por isso um app que não cobra taxa pode sair mais caro do que um que cobra.
As diferenças são grandes. No começo de 2026, pesquisadores compraram e venderam em seguida bitcoin e outras cinco moedas pelos apps de nove empresas reguladas na Alemanha. Em média, a ida e volta custou entre 0,53% e 6,45%, conforme o app.
O custo pode estar em seis lugares: a taxa, o spread, a forma de pagamento, uma conversão de moeda, a taxa de rede para mover o bitcoin e a taxa de saque do próprio app. Poucos apps mostram os seis na mesma tela.
A taxa que você vê
Alguns apps cobram um valor fixo por compra, outros uma porcentagem, outros as duas coisas. É o custo que as pessoas comparam, e muitas vezes não é o que mais pesa. Uma taxa fixa, além disso, pesa mais nas compras pequenas: 3 USD são 3% de uma compra de 100 USD e 0,3% de uma de 1.000 USD.
O spread, que você não vê
A todo momento, um mercado tem dois preços: o bid, o que os compradores oferecem por um bitcoin, e o ask, o que os vendedores pedem. A diferença entre os dois é o spread, e o preço de mercado fica no meio.
Um app que vende bitcoin para você cobra um preço acima do de mercado e, quando você vende, paga abaixo dele. Essa diferença é o spread do app. É assim que muitos apps que anunciam “sem taxas” ganham, e isso nunca aparece como taxa: já está dentro do preço que mostram para você. O regulador de valores mobiliários de Ontário diz isso com todas as letras: as taxas de negociação às vezes vêm embutidas no preço. Ele acrescenta que os preços variam de uma plataforma para outra e que, se uma plataforma não deixa claro como define os preços que oferece, você deve perguntar.
Duas ofertas, lado a lado
Digamos que você gaste 1.000 USD, e dois apps ofereçam bitcoin no mesmo momento:
| App A | App B | |
|---|---|---|
| Taxa | 1,5%, ou 15 USD | Nenhuma |
| Preço acima do mercado | Nenhum | 2,5% |
| Seu bitcoin, a preço de mercado | 985 USD | Cerca de 976 USD |
| Quanto custou | 15 USD | Cerca de 24 USD |
O que não cobra taxa sai mais caro. No App B, os 1.000 USD vão inteiros para o bitcoin, mas a um preço 2,5% acima do de mercado, então o que você recebe vale 1.000 dividido por 1,025: cerca de 976 USD.
O que pesquisadores pagaram ao comprar e vender
O estudo citado acima, do Blockchain Center da Frankfurt School, fez 432 operações de ida e volta em janeiro e fevereiro de 2026, com 100 ou 500 euros de cada vez. A ida e volta custou em média entre 0,53% e 6,45%, conforme o app, e na maioria dos apps o custo relativo quase não mudou entre os dois valores. Os spreads, que os apps muitas vezes não mostram separadamente, pesaram muito no que foi pago de fato.
Um segundo estudo da mesma escola, publicado em setembro de 2026 e encomendado por uma das seis corretoras analisadas, fez 2.088 operações de ida e volta ao longo de um ano, com bitcoin e outras duas moedas. Em média, a ida e volta custou entre 1,23% e 4,58%, conforme a corretora, em alguns casos bem acima do que as corretoras anunciavam. Numa grande exchange usada como referência, o spread nos mesmos momentos era de cerca de 0,16% no bitcoin, e a maior parte do custo, segundo o estudo, não se explicava pelo spread do mercado. Ter registro sob a lei europeia de criptoativos não reduziu o custo de forma sistemática. A conclusão do autor: a taxa que uma corretora declara ou anuncia, sozinha, diz pouco sobre qual escolher.
Quem paga quando o app não cobra nada
Alguns apps não executam sua ordem. Eles a repassam a uma empresa de trading, um formador de mercado (market maker, em inglês), que vende o bitcoin para você pelo preço ask dele e paga ao app por ter recebido a ordem. Isso se chama pagamento por fluxo de ordens.
A Robinhood, um app dos Estados Unidos que por padrão não cobra taxa nas ordens de cripto, explica nas suas páginas de ajuda como ganha com elas. Em junho de 2026, a cada 100 dólares de cripto que seus clientes compram ou vendem por meio dos formadores de mercado, ela recebe 0,95 dólar do formador de mercado, e “esse valor está incluído no spread”. No próprio exemplo da empresa, numa compra de 100 dólares com um spread de compra de 0,96%, ela recebe 0,95 dólar dos 0,96.
Os formadores de mercado pagam muito mais pelas ordens de cripto do que pelas de ações. Um texto para discussão publicado em janeiro de 2025 na série de pesquisa da SEC, o regulador do mercado de valores mobiliários dos Estados Unidos, calculou que a Robinhood recebia então 0,35% de cada dólar de cripto, contra cerca de 0,008% em ações: umas 45 vezes mais.
Os reguladores veem nisso um conflito de interesses: o app é pago pela empresa que define o seu preço. Em ações, a SEC concluiu em dezembro de 2020 que os clientes da Robinhood, a quem se oferecia negociar “sem comissão”, tinham recebido preços piores do que em outras corretoras, em grande parte por causa dos pagamentos excepcionalmente altos que a empresa recebia pelas ordens deles. Esses preços piores custaram aos clientes 34,1 milhões de dólares a mais do que eles economizaram em comissões. A Robinhood aceitou pagar uma multa de 65 milhões de dólares, sem admitir nem negar as conclusões da SEC.
Em cripto, a União Europeia e o Reino Unido agiram depois contra essa prática. O MiCA, o regulamento europeu de criptoativos, proíbe as empresas que transmitem ou executam as ordens de cripto de seus clientes de receber qualquer pagamento, desconto ou outro benefício por encaminhar essas ordens a uma plataforma ou empresa específica. Em junho de 2026, a Financial Conduct Authority (FCA), o órgão que supervisiona a conduta financeira no Reino Unido, disse que as empresas de cripto que recebem esses pagamentos dificilmente vão cumprir suas regras de “melhor execução”, conflitos de interesses e incentivos. Essas regras entram em vigor em outubro de 2027.
Ao vender, você paga o spread de novo
Quando você vende, o app paga abaixo do preço de mercado. Se você compra e depois vende no mesmo app, paga o spread duas vezes: com um spread de 2% na compra e outro de 2% na venda, a ida e volta custa cerca de 4% do seu dinheiro, sem contar as taxas. Essa ida e volta é o que os estudos acima mediram.
Como você paga
Pagar com cartão acrescenta custos próprios. As empresas de cartão em geral cobram uma taxa de processamento sobre cada transação com cartão de crédito, muitas vezes de 1,5% a 3%, segundo a FINRA, a entidade que regula as corretoras nos Estados Unidos, e o app pode repassar essa taxa a você.
Alguns emissores de cartão, além disso, tratam a compra de cripto como um adiantamento em dinheiro, e não como uma compra. O contrato de cartão do Citi, por exemplo, inclui as criptomoedas entre os adiantamentos em dinheiro, ao lado dos saques em caixas eletrônicos e das transferências: cada um tem uma tarifa de 10 dólares ou de 5% do valor, o que for maior, e juros desde o dia do lançamento, sem período de carência. Em janeiro de 2022, o órgão que regula a publicidade no Reino Unido decidiu que um anúncio que oferecia comprar bitcoin com cartão de crédito na hora era enganoso, porque omitia que uma compra com cartão podia significar juros mais altos e uma tarifa de adiantamento em dinheiro.
Se você paga numa moeda e o app cota o bitcoin em outra, a conversão tem um custo próprio, muitas vezes escondido do mesmo jeito: na taxa de câmbio. Em março de 2024, o Consumer Financial Protection Bureau (CFPB), a agência de proteção financeira do consumidor dos Estados Unidos, advertiu as empresas de remessa de dinheiro de que apresentar uma transferência como “grátis” pode ser enganoso quando elas cobram pela taxa de câmbio.
Tirar o bitcoin do app
Enviar bitcoin para outra carteira custa uma taxa de rede, paga aos mineradores que incluem a transação num bloco. Ela depende do espaço que a transação ocupa, não do valor: um pagamento simples ocupa cerca de 140 bytes virtuais, então enviar 50 USD em bitcoin pode custar o mesmo que enviar 50.000 USD.
Ela também depende da demanda. As carteiras mostram a taxa em satoshis, cada um a cem milionésima parte de um bitcoin, por byte virtual. No último ano, uma transação típica pagou cerca de 1 satoshi por byte virtual, segundo o mempool.space. Nas primeiras horas de 20 de abril de 2024, enquanto muita gente corria para criar tokens novos sobre o bitcoin, a transação típica pagou mais de 1.000 na maioria dos blocos, mais de mil vezes a taxa do último ano. Naquele dia, a taxa média por transação foi mais alta do que em qualquer dia anterior, segundo dados da YCharts citados pelo The Block; no dia seguinte, era mais ou menos um quarto disso.
Alguns apps ainda cobram uma taxa de saque própria. O regulador de Ontário inclui as duas, a da rede e a da plataforma, entre os custos que vale a pena conferir.
Valores grandes
Numa exchange em que você mesmo envia as suas ordens, uma ordem grande de compra a mercado consome primeiro as ofertas ao preço ask e depois as que estão acima dele, então uma parte é executada a preços mais altos. Isso se chama slippage, ou deslizamento, e cresce com o tamanho da ordem. Uma ordem limitada, que só compra ao preço que você define ou a um melhor, evita o problema, com o risco, como lembra a FINRA, de não comprar nada.
Onde os custos se escondem
| Custo | O que é | O que observar |
|---|---|---|
| Taxa | Um valor fixo, uma porcentagem ou as duas coisas | O total em dinheiro, e uma taxa fixa numa compra pequena |
| Spread | A diferença entre o preço do app e o do mercado | Um preço de compra e um de venda, antes de confirmar |
| Forma de pagamento | A taxa de processamento do cartão; no cartão de crédito, um adiantamento em dinheiro | Uma transferência bancária, e o que o contrato do seu cartão diz sobre adiantamentos em dinheiro |
| Conversão de moeda | Uma margem dentro da taxa de câmbio | A taxa de câmbio que você recebe, ao lado da de mercado |
| Taxa de rede | O que se paga aos mineradores para mover bitcoin | A taxa, e se você pode escolhê-la |
| Taxa de saque | O que o app cobra para enviar bitcoin para fora | O valor, antes de comprar |
Como calcular quanto você pagou
- Anote exatamente quanto bitcoin você recebeu e tudo o que pagou por ele.
- No mesmo momento, anote o preço de mercado segundo uma fonte independente, como um índice de preço ou o livro de ofertas de uma grande exchange.
- Multiplique o bitcoin que você recebeu por esse preço. A diferença em relação ao que você pagou é o seu custo total, taxa e spread juntos.
Fazer isso uma vez com cada app que você está considerando, pelo mesmo valor e no mesmo momento, leva poucos minutos. Somando tudo o que você ainda vai comprar, a diferença pode ser de alguns pontos percentuais.
Como escolher
- Compare o que você recebe, não a taxa. Pergunte a dois apps, no mesmo momento e pelo mesmo valor, quanto bitcoin você receberia com todos os custos incluídos, e fique com o que der mais. “Sem taxas” não diz nada sobre o preço.
- Escolha um app que mostre um preço de compra e um de venda antes de você confirmar. A diferença entre os dois é o que custa ali uma ida e volta, sem contar as taxas. Se um app não mostra esses preços, ou não diz como os define, procure outro.
- Pague com transferência bancária, não com cartão de crédito. Um cartão de crédito pode somar uma taxa de processamento, uma tarifa de adiantamento em dinheiro e juros desde o primeiro dia.
- Pague na moeda em que o app cota os preços, ou saiba qual taxa de câmbio estão dando a você.
- Confira a taxa de saque antes de comprar, não quando quiser tirar seu bitcoin do app.
- Compre para guardar, não para entrar e sair. Cada ida e volta paga o spread duas vezes.
Uma compra você paga uma vez. Onde você guarda o que comprou importa enquanto você o tiver: para o dinheiro do dia a dia, uma carteira que você controla; para as economias, um arranjo em que ninguém, nem mesmo uma empresa que ajuda você, consiga mover o dinheiro sozinho. Os guias sobre custódia e sobre carteiras de hardware, multiassinatura e custódia compartilhada explicam como escolher.
Fontes
Verificadas em 29 de outubro de 2026.
- Investor.gov (SEC): bid, ask e spread
- Comissão de Valores Mobiliários de Ontário: os custos das plataformas de cripto (2025)
- Frankfurt School: 432 operações de ida e volta em nove apps (2026)
- Frankfurt School: o custo total de negociar cripto para investidores pessoas físicas (2026)
- Frankfurt School: um ano de operações em seis corretoras de cripto (2026, em alemão)
- Robinhood: como encaminha suas ordens de cripto e quanto recebe (2026)
- SEC, texto para discussão: o pagamento por fluxo de ordens em cripto (2025)
- SEC: os clientes da Robinhood e o pagamento por fluxo de ordens (2020)
- ESMA: MiCA, artigo 80
- ESMA: perguntas e respostas sobre pagamentos pelo encaminhamento de ordens de cripto (2024)
- Financial Conduct Authority: PS26/11, as regras do Reino Unido para empresas de cripto (2026)
- FINRA: usar cartões de crédito para investir (2025)
- Citi: um contrato de cartão, sobre adiantamentos em dinheiro
- Advertising Standards Authority: o anúncio para comprar bitcoin com cartão de crédito (2022)
- Consumer Financial Protection Bureau: transferências "grátis" e a taxa de câmbio (2024)
- Bitcoin.org: taxas de transação
- mempool.space: as taxas por bloco
- The Block: as taxas de 20 de abril de 2024
- FINRA: ordens a mercado e ordens limitadas