Golpes com cripto: como funcionam e como reconhecê-los
A maioria dos golpes com cripto não invade nada: eles convencem você a enviar o dinheiro por conta própria, e ninguém consegue trazê-lo de volta. Os sinais se repetem: um desconhecido com um investimento, pressa, segredo, um retorno prometido, um pedido das suas palavras de recuperação e pagamento só em cripto.
Em 2025, o Centro de Denúncias de Crimes na Internet do FBI recebeu 181.565 denúncias envolvendo cripto, com perdas de 11,4 bilhões de dólares, 22% a mais que no ano anterior. Pessoas com 60 anos ou mais relataram mais de 4,3 bilhões de dólares desse total, mais de um terço. E essas são só as perdas que as pessoas relataram.
A maior parte desse dinheiro não foi levada por uma invasão: só os golpes de investimento respondem por quase dois terços. Um golpe não precisa quebrar nada. Precisa que você confie em alguém por tempo suficiente para enviar o dinheiro você mesmo, ou para entregar o que o movimenta: suas palavras de recuperação, um código de login, uma assinatura ou o controle da sua tela.
Pig butchering: um investimento que começa como amizade
Em inglês, pig butchering é o abate do porco, e o nome vem dos próprios golpistas, segundo a FinCEN, a unidade do Tesouro dos Estados Unidos contra crimes financeiros: eles chamam suas vítimas de “porcos”, engordados com atenção antes do “abate”.
Começa com uma mensagem para um número errado, um match num app de namoro ou uma mensagem nas redes sociais. Vem então uma conversa longa e amigável, em geral num app de mensagens, até que o novo amigo conta como se sai bem investindo em cripto e se oferece para ensinar. O site ou o app que ele indica parece real, mostra seu dinheiro crescendo e pode até deixar você sacar um pouco. Quando você tenta sacar o resto, primeiro é preciso pagar impostos ou taxas. Depois, o amigo desaparece.
Segundo o FBI, os americanos relataram perdas de 7,2 bilhões de dólares com fraudes de investimento em cripto em 2025, mais do que com qualquer outro tipo de crime; pessoas com 60 anos ou mais perderam quase 2,8 bilhões desse total. Qualquer um pode cair. Em agosto de 2024, um ex-presidente executivo de um banco do Kansas foi condenado a mais de 24 anos de prisão por desviar 47,1 milhões de dólares do banco, que ele tinha transferido em 2023 para um esquema de pig butchering. O banco quebrou, e seus investidores perderam 9 milhões de dólares.
Muitas das pessoas que digitam as mensagens também são vítimas. Segundo o FBI, esses golpes são comandados sobretudo por grupos do crime organizado no Sudeste Asiático, com vítimas de tráfico de pessoas como mão de obra forçada. Em outubro de 2025, promotores dos Estados Unidos acusaram o presidente do Prince Group, um conglomerado sediado no Camboja, de conspiração para cometer fraude eletrônica e lavagem de dinheiro, e acusaram o grupo de obrigar trabalhadores traficados, em complexos cercados por muros altos e arame farpado, a aplicar os golpes, muitas vezes sob ameaça de violência.
Desde janeiro de 2024, o FBI procura vítimas nos seus dados de denúncias e as avisa antes que percam mais. Das 3.780 que avisou em 2025, 78% não sabiam que estavam caindo num golpe.
Falso suporte e falsas autoridades
Outra porta de entrada é uma ligação, uma mensagem ou um pop-up sobre um problema: uma conta invadida, uma cobrança suspeita, um vírus. Quem liga diz ser do seu banco, de uma exchange, de uma empresa de tecnologia ou do governo, e a solução passa por mover seu dinheiro para um lugar “seguro” ou instalar um app que permite controlar sua tela. Em setembro de 2023, o FBI alertou para uma versão que chama de hacker fantasma (phantom hacker): um falso técnico, um falso banco e um falso funcionário do governo, um depois do outro, que convencem a vítima a passar suas economias para uma conta “segura”, por transferência, em dinheiro vivo ou em cripto, e a não contar a ninguém.
Em 2025, o centro de denúncias do FBI contabilizou perdas de 1,2 bilhão de dólares envolvendo cripto com falso suporte técnico e falso atendimento ao cliente, e de 281 milhões com pessoas que se passavam por funcionários do governo.
Uma ligação pode bastar. Em agosto de 2024, pessoas que se passaram pelo suporte do Google, e depois pelo da exchange Gemini, disseram a um homem de Washington que a conta dele tinha sido comprometida, fizeram com que ele redefinisse a verificação em duas etapas e compartilhasse a tela por um app de acesso remoto, e usaram isso para chegar às chaves privadas do bitcoin dele: mais de 230 milhões de dólares, segundo a promotoria. Em setembro de 2026, o homem que a promotoria aponta como líder do grupo se declarou culpado de conspiração para crime organizado, o 11º dos 18 réus a se declarar culpado.
Golpes de recuperação: o segundo ataque
Quem já perdeu dinheiro volta a ser procurado, agora por alguém que oferece recuperá-lo. Em 2025, o centro de denúncias do FBI recebeu 10.516 denúncias de golpes de recuperação, com perdas de 1,4 bilhão de dólares, um número que pode incluir o que o primeiro golpe levou.
Eles se apresentam como escritórios de advocacia, empresas de recuperação ou órgãos do governo, às vezes inventados, e podem saber exatamente quanto você perdeu e quando. Alguns dizem ser o próprio centro de denúncias do FBI. Antes de tudo, há uma taxa ou uma “verificação” a pagar, muitas vezes em cripto.
O FBI é direto: nenhum escritório de advocacia é parceiro oficial de um órgão do governo dos Estados Unidos, e seu centro de denúncias nunca entra em contato diretamente com as vítimas nem pede pagamento para recuperar fundos.
Apps falsos e sites falsos
Um golpe pode morar dentro de um app que parece real. Em julho de 2022, o FBI alertou que criminosos estavam convencendo pessoas a instalar apps falsos de investimento em cripto, alguns com o nome e o logotipo de uma instituição financeira real dos Estados Unidos; tinha identificado 244 vítimas e cerca de 42,7 milhões de dólares em perdas.
Estar numa loja oficial não prova nada. Em setembro de 2024, a empresa de segurança Check Point encontrou no Google Play um app falso do WalletConnect, publicado em março como uma calculadora para passar pela revisão. Baixado mais de 10.000 vezes, ele levou mais de 70.000 dólares de mais de 150 pessoas, pedindo que “verificassem” a carteira com assinaturas que lhe permitiam mover os tokens delas. O guia sobre perder o celular trata de apps que procuravam frases de recuperação nas fotos das pessoas, e do SIM swap, em que alguém assume o seu número de telefone.
Sites falsos copiam os verdadeiros num endereço com uma ou duas letras diferentes, e alguns pagam anúncios para aparecer no topo dos resultados de busca: em dezembro de 2022, o FBI alertou que esses anúncios imitavam sobretudo exchanges de cripto. E um endereço parecido, plantado no seu histórico de transações, pode enganar você quando você o copia de lá: o guia sobre enviar e receber dólares digitais explica esse envenenamento de endereços.
Deepfakes e falsas promoções
A falsa promoção é um truque antigo: um nome famoso promete devolver o dobro do que você enviar. A inteligência artificial deu a ela um rosto e uma voz. Em junho de 2024, um canal do YouTube com muitos seguidores, disfarçado de canal da Tesla, transmitiu por horas um deepfake de Elon Musk que prometia dobrar qualquer cripto enviada por um QR code mostrado na tela. O Digital Forensic Research Lab do Atlantic Council rastreou mais de 50.000 dólares enviados aos endereços dos golpistas durante a transmissão.
Em dezembro de 2024, o FBI alertou que criminosos estavam usando inteligência artificial para criar imagens de celebridades e vídeos que promovem fraudes de investimento, e para se passar por executivos de empresas em videochamadas ao vivo. As denúncias de fraude de investimento que mencionavam inteligência artificial somaram mais de 632 milhões de dólares em perdas relatadas ao FBI em 2025. Ninguém dobra a cripto que você envia.
Trabalhos em que quem paga é você
Os golpes de tarefas oferecem um trabalho fácil, em geral numa mensagem de texto ou de WhatsApp que você não esperava: curtir vídeos ou avaliar produtos num app, em troca de comissões que se acumulam na tela. Depois, uma rodada de tarefas exige um depósito seu para ser concluída, e sacar o que você ganhou também, que nunca foi real. As denúncias de golpes de tarefas à Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) passaram de cerca de 5.000 em todo o ano de 2023 para cerca de 20.000 no primeiro semestre de 2024, e a cripto, segundo a FTC, é a moeda preferida desses golpes. Em 2025, o centro de denúncias do FBI registrou perdas de 288 milhões de dólares envolvendo cripto em golpes de emprego. A regra da FTC: nunca pague a ninguém para receber.
Dinheiro vivo num caixa eletrônico de bitcoin
Muitos golpes de falso suporte e de falsa identidade terminam num caixa eletrônico de bitcoin, uma máquina que transforma dinheiro vivo em cripto. Quem liga diz que suas economias estão em risco, manda você sacar dinheiro e colocá-lo numa máquina específica, e envia por mensagem um QR code para você escanear lá, que manda o dinheiro para a carteira dele. Segundo a FTC, golpistas já chamaram essas máquinas de “armários de segurança”.
Em 2025, o centro de denúncias do FBI recebeu 13.460 denúncias sobre caixas eletrônicos de cripto, com perdas de 389 milhões de dólares, 58% a mais que em 2024. Pessoas com 60 anos ou mais perderam 257 milhões desse total, dois terços.
Os sinais em comum
As histórias mudam; os sinais, não.
- Um desconhecido que leva você a investir. Um novo amigo, um “mentor”, um grupo de entendidos. O conselho da FTC é nunca misturar namoro on-line com conselhos de investimento.
- Pressa. Uma conta prestes a ser esvaziada, uma oferta prestes a acabar, um prazo para investir.
- Segredo. Pedem que você não conte ao seu banco, à sua família nem a ninguém, para a sua própria segurança.
- Um retorno prometido. Só golpistas garantem lucros ou retornos altos, diz a FTC. Lucros que você vê mas não consegue sacar sem pagar antes são o mesmo sinal.
- Um pedido das suas palavras de recuperação, de um código ou de um app. Nenhuma empresa legítima pede suas palavras de recuperação nem os códigos de login que ela mesma envia, e um app que compartilha sua tela entrega tudo o que há nela.
- Pagamento em cripto, com cartão-presente ou em dinheiro vivo numa máquina. Só golpistas exigem pagamento em cripto, segundo a FTC, e nenhuma empresa ou órgão de verdade vai mandar você a um caixa eletrônico de bitcoin.
Lado a lado
| Como começa | O que pedem | |
|---|---|---|
| “Amigo” investidor | Um número errado, um match num app de namoro, uma mensagem nas redes sociais | Depósitos num site ou app que ele indica, depois taxas para sacar |
| Falso suporte ou falsa autoridade | Uma ligação, uma mensagem ou um pop-up sobre um problema | Seu dinheiro num lugar “seguro”, ou um app no seu aparelho |
| Serviço de recuperação | Uma oferta para recuperar o que você perdeu | Uma taxa, adiantada |
| App ou site falso | Um anúncio, um link, um app numa loja | Suas palavras de recuperação, seu login ou uma assinatura |
| Falsa promoção | Uma transmissão ao vivo ou uma publicação de um nome famoso | Cripto, para ser “dobrada” |
| Emprego ou tarefas | Uma mensagem oferecendo trabalho fácil | Depósitos para concluir tarefas ou para sacar o que você ganhou |
| Caixa eletrônico de bitcoin | Alguém que liga dizendo que suas economias estão em risco | Dinheiro vivo numa máquina, para um código que eles mandam |
Se aconteceu com você
- Pare de pagar. Nenhum imposto, taxa ou depósito vai liberar o dinheiro que está com um golpista. Cobrar um deles costuma ser o último movimento do golpe.
- Guarde tudo. O FBI pede os endereços para os quais você enviou, os valores, os identificadores das transações e as datas e horários, e também como você conheceu o golpista, os apps e sites envolvidos e qualquer número de telefone.
- Denuncie. Nos Estados Unidos, ao FBI, em ic3.gov, e à FTC, em ReportFraud.ftc.gov. O centro de denúncias do FBI também recebe denúncias do exterior: em 2025, recebeu de mais de 200 países. Registre a ocorrência na polícia de onde você mora e avise a exchange ou a empresa do caixa eletrônico que você usou.
- Proteja o que sobrou. Se você entregou suas palavras de recuperação ou deixou alguém instalar um app, suponha que ainda conseguem chegar ao que resta, e passe tudo para uma carteira nova, criada num aparelho que eles nunca tocaram.
- Espere uma segunda ligação. Trate como o próximo golpe qualquer pessoa que ofereça recuperar o dinheiro em troca de uma taxa.
Denuncie mesmo que o dinheiro pareça perdido. Um pagamento com cartão ou uma transferência bancária passa por empresas que podem bloqueá-lo ou estorná-lo; uma transferência de cripto, não. Nenhum terceiro fica entre as duas partes nem a aprova, explica o FBI, e quem recebe costuma mandar o dinheiro para o exterior rapidamente. Como diz a FTC, em geral você só o recupera se a pessoa a quem pagou devolvê-lo. As denúncias permitem ao FBI ligar casos, seguir o dinheiro nos registros públicos e, às vezes, congelá-lo.
Como se proteger
- Trate qualquer contato inesperado sobre o seu dinheiro como golpe até verificar você mesmo. Desligue e ligue de volta para um número que você procurou, não para o que deram a você.
- Guarde suas palavras de recuperação só para você. Digite-as apenas na carteira que você está restaurando, nunca as leia para ninguém e nunca instale um app porque alguém pediu.
- Não aceite conselhos de investimento de quem você só conheceu pela internet, e não coloque dinheiro em nenhum lugar que não deixe você sacar sem pagar antes.
- Pare quando alguém mandar você pagar em cripto, com cartão-presente ou num caixa eletrônico de bitcoin. Só golpistas fazem isso.
- Vá devagar, e conte a alguém de confiança antes de enviar. Golpes vivem de pressa e de segredo, e uma segunda opinião quebra os dois.
- Confira cada endereço para o qual você envia, caractere por caractere, com um que você recebeu diretamente de quem vai receber.
- Guarde suas economias onde uma única assinatura não consiga movê-las: uma configuração em que uma segunda chave respeita limites que você definiu, e pode fazer um saque grande esperar, dá tempo de perceber um golpe, e o guia sobre carteiras de hardware, multiassinatura e custódia compartilhada apresenta o teste.
Fontes
Verificadas em 29 de outubro de 2026.
- FBI: relatório de crimes na internet de 2025 (2026)
- FinCEN: alerta sobre o pig butchering (2023)
- Escritório do Inspetor-Geral da FDIC: a condenação de um ex-presidente executivo de banco (2024)
- Departamento de Justiça dos Estados Unidos: a acusação contra o presidente do Prince Group (2025)
- FBI: os golpes do hacker fantasma (2023)
- BleepingComputer: dois homens acusados por um roubo de 230 milhões de dólares (2024)
- AP, via WDBJ7: o líder se declara culpado (2026)
- FBI: falsos escritórios de advocacia que oferecem recuperar fundos (2025)
- FBI: golpistas que se passam pelo seu centro de denúncias (2025)
- FBI: apps falsos de investimento em cripto (2022)
- Check Point Research: o app falso do WalletConnect (2024)
- FBI: sites falsos em anúncios de buscadores (2022)
- DFRLab: uma transmissão ao vivo com deepfake no YouTube (2024)
- FBI: criminosos que usam inteligência artificial generativa (2024)
- FTC: os golpes de tarefas (2024)
- FTC: os caixas eletrônicos de bitcoin (2024)
- FTC: o que saber sobre criptomoedas e golpes (2022)
- FBI: relatório sobre fraudes com criptomoedas de 2023 (2024)