Dólares quando você precisa.

Dólares num banco do seu país dependem desse banco e das regras desse país. Os dólares digitais na Ficha não estão em nenhum banco do seu país. Abaixo, os casos em que dólares em bancos foram racionados, congelados ou convertidos em moeda local, e o que os dólares digitais não fazem.

Quando os dólares são racionados.

Governos que defendiam uma moeda em queda já limitaram quem podia comprar dólares, quantos e para que podiam ser usados.

De 2011 a 2015
Argentina. A partir de outubro de 2011, comprar dólares para guardar passou a exigir a aprovação do fisco, e em julho de 2012 o banco central suspendeu a regra que permitia às pessoas físicas comprá-los. Voltou a permitir em janeiro de 2014, de acordo com a renda que cada pessoa tinha declarado. Os controles terminaram em dezembro de 2015.
De 2015 a 2019
Grécia. Na zona do euro, os bancos fecharam por três semanas a partir de junho de 2015, e os caixas eletrônicos pagavam no máximo 60 euros por dia. O limite ao dinheiro em espécie durou até outubro de 2018, e os últimos limites às transferências para o exterior terminaram em setembro de 2019.
De 2019 a 2025
Argentina. A partir de setembro de 2019, as pessoas físicas precisavam da aprovação do banco central para comprar mais de 10.000 dólares por mês pelo câmbio oficial, e a partir de outubro, mais de 200. Ao lado, cresceu um câmbio paralelo: mais de 150% acima do oficial no fim de 2023, segundo o FMI. As pessoas físicas voltaram a poder comprar dólares sem aprovação a partir de abril de 2025.
De 2022 a 2024
Egito. A partir de fevereiro de 2022, ficou difícil conseguir dólares pelos bancos: o FMI contou de 7 a 8 bilhões de dólares em pedidos de moeda estrangeira à espera nos bancos. Em outubro de 2023, pelo menos dois bancos bloquearam o uso dos seus cartões de débito no exterior, segundo a Reuters. Em março de 2024, a libra perdeu 38% do seu valor frente ao dólar em um dia, segundo o FMI.
De 2023 a 2026
Bolívia. Desde o início de 2023, faltaram dólares, e as pessoas fizeram fila na frente dos bancos e do banco central, segundo a Reuters e a AP. Em abril de 2023, o regulador decretou intervenção no Banco Fassil, cujos depositantes não conseguiam acessar o próprio dinheiro. O governo racionou a moeda estrangeira, concluiu o FMI em 2025, e só em janeiro de 2026 o banco central começou a devolver dólares em espécie aos poupadores, primeiro aos de saldos menores.

De julho de 2024 a junho de 2025, mais da metade do que as pessoas na Argentina compraram com pesos nas exchanges de criptomoedas acompanhadas pela Chainalysis foi em dólares digitais.

Quando um banco fecha.

Bancos quebram em todo lugar. O que acontece depois depende de quem está por trás deles.

Março de 2023
Estados Unidos. O Silicon Valley Bank quebrou. No mesmo fim de semana, o Tesouro, o Federal Reserve e o FDIC anunciaram que todos os seus depositantes, segurados ou não, teriam acesso a todo o seu dinheiro no dia útil seguinte.
Novembro de 2026
Paraguai. O banco central decretou intervenção no Ueno Bank, cujo índice de solvência tinha caído abaixo da metade do mínimo legal. O app, os cartões, os caixas eletrônicos e as agências pararam, e os clientes, mais de 3 milhões pela contagem do banco, já não conseguiam pagar nem sacar. A garantia de depósitos cobre até 75 salários mínimos mensais por depositante, e os primeiros pagamentos ficaram limitados a cerca de 1.700 dólares cada. Acima da garantia, nada assegurava aos poupadores que receberiam tudo de volta.

Quando o governo decide.

Governos já congelaram depósitos, converteram dólares em moeda local a uma taxa que eles mesmos fixaram, deram ações aos depositantes no lugar das suas economias e impediram que o dinheiro saísse do país.

Março de 1990
Brasil. No dia seguinte à posse, o novo presidente congelou os saldos bancários acima de um limite, em contas correntes, cadernetas de poupança e outros ativos financeiros: cerca de 30% do PIB do país, segundo o FMI. O dinheiro foi devolvido em 12 parcelas mensais, a partir de 18 meses depois.
1999 e 2000
Equador. Em março de 1999, depois de um feriado bancário de uma semana, o governo congelou os depósitos. Quando o país adotou o dólar, no início de 2000, os depósitos continuavam congelados, e 16 instituições financeiras, que tinham 65% dos depósitos do país, tinham sofrido intervenção ou sido fechadas. Muitos depositantes esperaram anos pelo dinheiro, e a maioria o recebeu de volta com perda, segundo o FMI.
Dezembro de 2001
Argentina. Um decreto limitou os saques em espécie a 250 dólares por semana por pessoa em cada banco e proibiu a maior parte das transferências para o exterior: o corralito.
Fevereiro de 2002
Argentina. Outro decreto converteu em pesos todos os depósitos em dólares nos bancos do país, a uma taxa fixada pelo governo. No fim do ano, o peso tinha perdido cerca de 70% do seu valor frente ao dólar, pela taxa do banco central.
Julho de 2002
Uruguai. Depois de um feriado bancário, uma lei adiou a devolução dos depósitos a prazo em dólares dos dois bancos estatais: um quarto em até um ano, o resto nos dois anos seguintes. Os bancos tinham perdido cerca de 45% dos depósitos, segundo o FMI.
Março de 2013
Chipre. Na zona do euro, os bancos fecharam por dez dias e reabriram sob controles de capital que duraram dois anos. O Laiki foi liquidado, e no Bank of Cyprus 47,5% de todo depósito acima de 100.000 euros foi convertido em ações. A medida atingiu 3,8 bilhões de euros em depósitos, cerca de um quarto do total, e cerca de 20.000 depositantes, segundo o Banco Central de Chipre.
Desde 2019
Líbano. A partir de novembro de 2019, os bancos limitaram os saques das contas em dólares, primeiro a 1.000 dólares por semana, sem nenhuma lei por trás, e em 2022 os clientes comuns já não conseguiam enviar dinheiro ao exterior. A partir de junho de 2021, os depositantes só puderam tirar seus dólares aos poucos e em moeda local, com perda de 60% a 80%, segundo o Banco Mundial. Em 2022, alguns assaltaram bancos para tirar as próprias economias, segundo a AFP.

O seguro de depósitos não ajuda nisso: ele paga quando um banco quebra, até um limite, e um congelamento ou uma conversão por decreto não é a quebra de um banco.

O que os dólares digitais mudam.

  • Sem banco no meio

    Na Ficha, eles não são um depósito em nenhum banco, então o fechamento do seu banco, ou um congelamento de depósitos, não os atinge. Na sua Carteira, eles só se movem com a sua chave, a qualquer hora; no Cofre, nenhuma chave basta sozinha.

  • Não são notas na gaveta

    Um roubo, um incêndio ou uma nota falsa levam o dinheiro em espécie para sempre. Se você perder o celular, sua Carteira volta com a sua conta da Apple ou do Google.

  • Lastreados nos Estados Unidos

    Os dólares digitais na Ficha são lastreados em dinheiro e em títulos de curto prazo do Tesouro americano, mantidos pelo emissor, uma empresa dos Estados Unidos.

  • Sem conta para abrir

    Basta um celular, e nenhum banco precisa aceitar você. Bancos no exterior recusam, sim, pessoas pela origem: um relatório de 2022 da Autoridade Bancária Europeia constatou que os bancos costumam recusar ou encerrar clientes ligados a países que consideram de alto risco.

  • De um país a outro, em minutos

    Num teste de 2026 do banco central da Itália, dinheiro enviado como dólares digitais chegou a uma conta bancária em outro país em menos de 20 minutos.

O que eles não fazem.

  • Não são um depósito bancário

    Nenhum seguro de depósitos os cobre, e nenhum governo os garante.

  • O emissor pode congelá-los

    Em qualquer carteira, por exemplo, por ordem judicial.

  • A chave é sua

    Sua Carteira depende da sua conta da Apple ou do Google, então cuide bem dessa conta. Para as economias, o Cofre faz com que elas não dependam de uma única chave.

  • Não se gastam em todo lugar

    Onde você mora, normalmente vai precisar vendê-los por moeda local antes, e isso tem um custo. Alguns países os restringem.

Nem tudo num só lugar.

Nenhuma forma de guardar dólares está a salvo de tudo. Notas podem ser roubadas, um banco pode fechar ou ter os depósitos congelados, e os dólares digitais podem ser congelados pelo emissor ou perdidos junto com uma chave. Guarde em mais de um lugar: na Ficha, a Carteira é para o dinheiro do dia a dia, e o Cofre, para as economias.

Todas as formas de guardar dólares, comparadas.

Fontes

Verificadas em 5 de novembro de 2026. O caso do Paraguai ainda estava em andamento naquela semana; os números são os publicados na época.

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